Ciclone Jude deixa Lalaua sem transporte: Estradas destruídas e futuro incerto para a região

Lalaua enfrenta grave crise de transporte após destruição causada pelo ciclone Jude

Desde 10 de março, o distrito de Lalaua, no norte de Moçambique, sofre com a falta de transporte devido ao colapso das estradas que conectam a região a Ribáuè, cidade vizinha situada a 80 km. O ciclone Jude, que atravessou a zona norte do país com ventos de até 120 km/h e rajadas de até 195 km/h, deixou um rastro de destruição em várias infraestruturas, incluindo pontes, escolas, casas e centros de saúde.

O ciclone não só causou inundações devastadoras como também resultou em tragédias: pelo menos nove mortes e 20 feridos foram confirmados, conforme os relatos oficiais. Além disso, a região enfrenta grandes dificuldades de mobilidade, uma vez que as vias principais estão completamente intransitáveis.

Ponte danificada

Em uma tentativa de compreender os impactos diretos desse desastre, nossa equipe de reportagem conversou com transportadores locais que actuam no trajecto Ribáuè-Lalaua, a fim de captar a realidade de quem enfrenta os desafios da falta de infraestruturas e das alternativas precárias de transporte.

Impacto imediato nas rotas de transporte

Rádio Comunitária Mirrupi (RCM): O corte das três pontes afetou diretamente as rotas de transporte entre Lalaua e Ribáuè. Como isso impactou o seu trabalho?

Pascoal Francisco Augusto (PFA): O corte afetou muito, pois tornou a estrada intransitável. Nossos transportes são coletivos e de grande porte, então não arriscamos transitar por essas condições precárias. É simplesmente impossível continuar operando sem garantir a segurança dos passageiros.

RCM: Quais alternativas de caminhos você tem utilizado para continuar realizando o transporte de pessoas e bens? Essas rotas são seguras?

PFA: Actualmente, utilizamos um desvio pela estrada de Mululi, passando por Pedra Ferro. Mas essa rota tem vários problemas. Durante o trajeto, perdemos sinal de telefonia móvel, o que dificulta a comunicação, e as ondulações nas estradas tornam a viagem ainda mais difícil.

Custos e dificuldades logísticas

RCM: O desvio pelas rotas alternativas aumentou seus custos operacionais? Como tem lidado com esse aumento de despesas?

PFA: Sim, os custos aumentaram muito. A única solução foi repassar esse custo adicional para os passageiros, aumentando o valor das passagens, além de cobrar mais pelos bens que transporto.

RCM: A falta de pontes está afectando a eficiência dos seus serviços? Como isso impacta economicamente o seu negócio?

PFA: Com certeza. Além dos custos elevados, os atrasos se tornaram frequentes. E, como se não bastasse, o desgaste dos veículos também aumentou devido ao tipo de terreno nas rotas alternativas.

Medidas de segurança e expectativas de melhorias

Em uma entrevista com César Augusto, outro transportador local, nossa equipe buscou entender mais sobre as medidas de segurança adoptadas e as expectativas em relação ao futuro da infraestrutura na região.

RCM: Quais medidas de segurança você tem adotado para garantir que os transportes não sofram mais danos durante os trajectos alternativos?

César Augusto (CA): Estamos tomando várias precauções, desde o abastecimento adequado dos veículos até a presença de um mecânico durante o trajeto. Assim, conseguimos resolver qualquer problema mecânico inesperado.

RCM: Tem sido difícil garantir a segurança dos passageiros e das mercadorias devido à condição das estradas alternativas?

CA: Com certeza. Já tivemos casos em que passageiros sofreram devdo algumas enfermidades, o que resultou em atrasos enquanto atendíamos as vítimas e recuávamos até o posto de saúde de Ribáuè. Isso sem contar os dias em que tivemos que adiar entregas de mercadorias devido à péssima condição da estrada.

A reação das autoridades e a colaboração entre transportadores

RCM: O governo ou outras autoridades locais têm oferecido apoio ou orientações sobre como lidar com esta situação?

CA: Até o momento, não recebemos muito apoio. Tivemos que mudar de rota, pois o governo iniciou um projeto para raspagem de uma estrada alternativa, mas a falta de pontes ainda é um grande obstáculo. Se chover forte, é possível que até essa rota também se torne intransitável.

RCM: Houve alguma colaboração entre os transportadores para encontrar soluções eficazes?

CA: Não, ainda somos praticamente os únicos operando na região. No entanto, houve um momento de colaboração entre os comerciantes locais para tentar reparar a estrada principal, mas a situação continua muito difícil, por isso abandonamo-la.

Expectativas quanto à reconstrução das pontes

RCM: O que você espera da reconstrução das pontes? Há alguma previsão de quando isso poderá acontecer?

CA: Até agora, não recebemos nenhuma informação concreta sobre a reconstrução. A nossa esperança é de que, se a situação continuar assim, em alguns meses, especialmente na próxima época chuvosa, o transporte entre Lalaua e Ribáuè será impossível. Isso causará um enorme impacto para a população local e para o comércio da região.

RCM: Como você vê o futuro do transporte na região, caso as pontes não sejam reconstruídas em breve?

CA: Se não houver reparos, acredito que o transporte se tornará insustentável. A estrada principal não está sendo utilizada por enquanto, o que cria uma janela de oportunidade para as autoridades competentes agirem, antes que as chuvas voltem a causar mais destruição. Caso contrário, a situação se agravará muito em breve.

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